Tedesco não é frango

Vi perfeitamente quando a rajada de metralhadora rasgou o peito do Sargento Max Wolff Filho. Instintivamente ele juntou as mãos sobre o ventre e caiu de bruços. Não se mexeu mais. O Tenente Otávio Costa, que estava ao meu lado no Posto de Observação, apertou os dentes com força, mas não disse uma palavra. Quando lhe perguntei se o homem que havia tombado era o Sargento Wolff, ele balançou afirmativamente com a cabeça.

Menos de uma hora antes eu estivera conversando com o sargento. Creio que foi a mim que ele fez suas últimas confidências. Falou-me de sua filha, uma menina de dez anos de idade, que ficou no Brasil. Disse-me que era viúvo e deu-me notícias de que sua promoção a segundo-tenente, por ato de bravura, não tardaria a chegar. E como eu estava recolhendo mensagens entre os homens de seu Pelotão de Choque, já formados para a patrulha de minutos depois, o Sargento Max Wolff pediu-me que também enviasse uma sua. Estão comigo as poucas linhas que sua letra delicada e certa escreveu no meu caderno de notas: “Aos parentes e amigos: Estou bem. À minha querida filhinha: Papai vai bem e voltará breve”.

Tenho ainda nos ouvidos, muito vivas, as últimas palavras que escutei do sargento. Um dos soldados lhe pedira uma faca, e ele respondeu, sorrindo:

- Voi non bisogna faca. Tedesco não é frango.

O sargento saiu com seus homens pelas sebes e ravinas da direita, e nós seguimos para as montanhas do norte, defronte ao ponto que a patrulha deveria atingir. Vimos quando os homens apontaram na terra de ninguém e seguiram cautelosos pela estrada deserta. O sargento havia transformado seus pentes de munição num colar que o sol incendiava. Levava o capacete de aço debaixo do braço e a pequena Thompson apontada para a frente. Nossa artilharia, à esquerda, cessara de atirar, e agora era um silêncio total. O Tenente Otávio Costa me disse:

- Não é possível que os alemães estejam ali.

Continue lendo >>



Joel Silveira – Correspondente de Guerra
O Brasil na 2ª Guerra Mundial (Edições de Ouro)