![]()
Publicado no A Voz da Serra, de Nova Friburgo, edição de 18 a 20 de fevereiro de 2012
Lugar de homem não é na cozinha! Não, não estou fazendo gracinha, imaginem. Essa era uma das frases preferidas de minha mãe e, acredito, de quase todas as mulheres na década de 50, do século passado. Apesar de trabalhar em uma repartição federal no centro da cidade, acreditava que homem na cozinha significava, no mínimo, um desastre de proporções épicas.
Está bom, nós tinhamos empregada e cozinheira, um luxo na época para uma família de classe média muito média mesmo. O mais curioso é que elas também pensavam da mesma forma: na cozinha homem só podia entrar para beber água e olhe lá! Ah, os velhos anos 50!
Por mais que me esforce, não consigo lembrar de meu pai preparando alguma coisa na cozinha que não fosse um martini sêco, sua grande paixão culinária ou abrindo uma cervejinha bem gelada, isso quando a geladeira, como todas as da época, conseguiam sobreviver ao calor do verão carioca. E olha que ele morou sozinho durante muitos anos! Mas justiça seja feita, lavava pratos tão bem quanto uma mulher, sem nenhuma conotação machista, por favor.
Meus tios e tias paulistas, matogrossenses e gaúchos seguiam a mesma cartilha, com uma pequena diferença: a turma do interior pescava ou caçava o almoço, limpava, preparava, juntava amigos e parentes para dar cabo do bicho e depois iam todos dormir, enquanto minhas tias se encarregavam de limpar a bagunça e deixar preparado o almoço do dia seguinte. Pensando bem, isso não mudou muito e, vamos combinar que preparar um churrasco ou uma peixada uma vez por semana não pode ser considerado “entrar na cozinha”!
Eu nunca soube cozinhar sequer um mero ovo, confesso! Como tinha tudo na mão, acreditava que um bom bife com fritas, arroz e feijão nascia na cozinha. Literalmente, é claro. Como poderia imaginar que teria que ir à feira, comprar o arroz, limpa-lo e ainda por cima prepara-lo? Pois é, mas um dia a gente acaba caindo na real e é obrigado a aprender o caminho da cozinha.
- Carlos, essa aqui é a Cozinha.
- Prazer, Dona Cozinha, posso entrar?
Por um desses acasos do destino (e no caso um bom acaso), passei a vida quase toda só entrando em cozinhas para beber água, abrir uma cervejinha ou filar um sorvete da geladeira, não obrigatoriamente nessa ordem. Como sou de uma geração mais moderna do que a dos meus pais, lavo a louça, faço faxina e aqueles gatilhos de praxe na parte hidráulica, geralmente refeitos por quem entende do ramo.
Mas como o ditado popular já ensina, o tempo passa, as horas voam, as pessoas somem, os olhares já não são tão penetrantes, as pernas já não ficam bambas e resolvemos morar em Nova Friburgo, cansados dos problemas de segurança e desordem urbana de uma cidade com dez milhões de habitantes.
Destemidamente tomei a dianteira e passei a subir a serra na frente, sozinho. Só que horrorizado me dei conta que não sabia cozinhar, lavar e passar, exatamente nesta ordem! Caramba, almoçar e jantar fora todos os dias, deixar a roupa acumular até a patroa chegar e rezar para a faxineira não faltar para tirar a sujeira da casa não era exatamente o que tinha imaginado para minha nova vida aqui na serra.
Resolvi tomar vergonha na cara e mandei a tal da herança cultural às favas: resolvi aprender a cozinhar, lavar e passar roupa e fazer a faxina da casa. Infelizmente descobri que não tenho o menor cacoete para lavar e passar e assim contratei uma auxiliar para cuidar da limpeza geral. Mas a cozinha, a partir daquele momento, era minha.
Aqui cabe uma observação que até mesmo as donas de casa mais tradicionais vão concordar: tudo está mais fácil e quando digo tudo, é tudo mesmo! A tecnologia finalmente chegou na cozinha e os velhos equipamentos como fogão e geladeira incorporaram novidades práticas como degêlo automático, acendimento eletrônico e ficaram mais eficientes.
Minha primeira providência foi pedir a receita das receitas, isto é, que tipo de panela usar, qual a ordem das, digamos, operações, como saber se a temperatura está certa e por aí vai. Minha grande dificuldade era, por exemplo, saber se preparo o arroz antes ou depois da farofa. Podem achar graça, mas para um analfabeto funcional culinário, isso é muito importante.
Já a segunda providência foi mais prática: comprei um micro-ondas, uma das maiores invenções do homem depois da roda e do smartphone! Meus caros, o bicho serve para qualquer coisa, da pipoca ao o sorvete empedrado, da comida congelada até o que sobrou do jantar da véspera. Com ele, você jamais passará fome, a não ser que a luz acabe. Aí não tem jeito, o remédio é ir para o fogão ou procurar um restaurante.
Outra ótima aquisição foi a panela de fazer arroz, totalmente eletrônica. Depois de alguns anos preparando arroz de saquinho, resolvi investir na modernidade e não me arrependo, seu funcionamento é sensacional e permite fazer pratos como arroz com legumes, brócolis, funghi e por aí vai. Uma beleza e todo mundo acha que meu arroz é ótimo!
Meu primeiro prato foi um filé passado no grill, arroz simples, milho cozido e um ovo frito que, sorte de principiante, ficou lindo como ele só, digno de uma fotografia para revistas de cozinhas. O problema é que nunca mais consegui repetir o feito e, diante do aspecto lamentável dos meus últimos trabalhos, ninguém acredita que sei fritar um ovo sem deixá-lo com jeito de uma nuvem piroplástica. Já tentei com óleo, manteiga, margarina, sabão em pó, o que tiver. Qualquer dia acerto novamente e fotografo para a posteridade.
Pois é, tanto tempo depois, os homens finalmente descobriram para que servem as cozinhas! Pessoalmente me divirto cozinhando. Aliás, vale até uma analogia, preparar um prato é quase como escrever um conto! Sério, você tem que bolar o que vai comer, comprar os ingredientes e gastar um bom tempo preparando tudo. Depois, para servir, escolher os acompanhamentos, a bebida, os pratos e talheres e a expectativa se seus convidados gostaram. Com crônicas é a mesma coisa!
Bom apetite.
Charge: Miguel Paiva
Oi Miguel, ainda bem que este ditado não foi levado à sério na cultura da minha família, pelo menos na cultura da família do meu esposo, ele faz pratos maravilhosos realmente dignos de foto e não é que o danado consegue repetir a dose, é ele é bom mesmo na cozinha. Um dos pratos que ele repetiu a dose foi um salmão grelhado e depois defumado com um desses novos inventos da modernidade (www.defumatec.com.br) para facilitar a nossa e a sua vida na cozinha, ficou realmente muito bom, estou até pensando em pedir bis este fim de semana.
Bom apetite!
Nori
Pingback: A picanha de chuva « Blog da Serra | Nova Friburgo